Publicidade

Diário Liberdade
Sexta, 18 Novembro 2016 19:13 Última modificação em Quarta, 23 Novembro 2016 12:19

Cuba: o menino de 14 anos que foi professor durante a campanha de alfabetização de 1961

Avalie este item
(2 votos)
País: Cuba / Língua/Educaçom / Fonte: Granma Internacional

Por Yenia Silva Correa

Para examinar a Campanha de Alfabetização em toda sua grandeza nós não nos podemos limitar na valorização do esforço titânico que fez o país, em 1961. É necessário ir mais além e compreender que os jovens que foram aos lugares mais recônditos da nação, foram a semente que fez nascer e se expandir o conjunto de profissionais, técnicos, operários que integram hoje o valioso capital humano, criado em quase 60 anos de Revolução.

Entre aqueles que se preparavam como professores estavam também os que, pouco depois, graças ao plano de bolsas, iriam dedicar-se a trabalhar como tradutores, intérpretes e professores de idioma russo, uma língua bastante distante para os cubanos naquela época.

«Em 1961 e inícios de 1962, o idioma russo era algo mais que exótico. Ninguém sabia nada daquele país que está do outro lado do mundo. Nas ofertas de bolsas havia duas opções que me interessavam: uma era a de tradutor e a outra era a de professor», assinala Antolín Bárcena Luis, que alfabetizou com apenas 14 anos.

Leia também:

Por que a educação em Cuba é uma história de êxitos e o que ela pode ensinar ao mundo

Cuba é o melhor país para ser uma menina na América Latina

«Eu queria estudar para tradutor, mas quando li o formulário, dizia: ‘Os que querem estudar para tradutor de russo devem ter concluída a nona série; se quiser estudar para professor, então pode entrar com a oitava série’. Eu tinha oitava série».

«Eu disse: ‘Vou ser professor. Quem sabe as guinadas da vida? Por isso fui estudar na Escola Secundária Básica para Professores de Idioma Russo, Máxim Gorky, que durou dois anos e meio».

«Passei os dois anos e quando já ia me graduar, disseram-me: ‘Você tem sido selecionado para que permaneça como professor’ Aquilo me surpreendeu».

«Isso me afastou do mundo da tradução. Ali foi criado o Centro Metodológico Nacional de Idioma Russo. Eram dez cubanos selecionados para trabalhar com dez soviéticos. Foi o ano (setembro de 1964) em que se começou a ensinar russo ao longo do país».

«A outro garoto e a mim nos enviaram para a província de Las Villas. Na época, eu tinha 16 ou 17 anos. Com essa idade éramos inspetores nacionais do Ministério da Educação e íamos pela província toda, com duas assessoras soviéticas, muito mais velhas que nós. Aí trabalhei um ano».

«Depois, disseram-me: ‘Você foi selecionado para passar um curso em Moscou’. Esse curso também foi de professor. Quando retornei no ano 1967, estava surgindo em Cuba o primeiro centro de educação militar, de nível superior, da Revolução (o Instituto Técnico Militar -ITM). Muitas das pessoas que retornamos, após estudar nos países socialistas, fomos concentrados nessa universidade militar. Por isso, também fui para ali como professor».

«Daí em diante, eu me mantive na docência. Depois, a vida foi me levando para a tradução. Sou tradutor à carreira, não de carreira. No ITM, às vezes, tive que fazer traduções e interpretações. A última matéria da qual dei aulas foi de Tradução e Interpretação, na universidade».

GOYO, ESTE É SEU PROFESSOR

Talvez a vida do professor Antolín teria sido muito diferente, caso não ter alfabetizado na Serra Maestra. Mas as lembranças dessa experiência, as pessoas que instruiu e a situação social daquela paragem o acompanham até hoje.

«Eu cheguei ali em 1º de junho. Levou-me uma professora voluntária e disse ao dono da casa, chamado Goyo: ‘Olhe, este é seu professor’. Isso foi em 1º de junho de 1961, às 17h30».

«Goyo era uma pessoa revolucionária. Inclusive, um irmão dele tinha sido oficial do Exército Rebelde, mas o único que ele tinha era uma vaquinha, que lhe deram por sua contribuição na luta».

«A gente era capaz de perceber então com quanta força se manifestavam as diferenças sociais: quem possuía um pedacinho de terra tinha uma boa choupana e não tinha necessidades, porque cultivava a terra com suas vaquinhas; e quem não tinha nada vivia de boia-fria, aqui e lá. Aquele podia ir à loja do povo e comprar uma série de coisas e os outros tinham uma fome atroz».

A saúde do jovem professor não era tão firme quanto suas convicções de integrar-se ao processo revolucionário, pois adoeceu e teve que retornar à casa dos pais, em Villa Clara. Mas quando se recuperou, voltou à Serra, para continuar alfabetizando Goyo e sua família.

«Lembro que no mês de outubro, depois da doença, retornei. Aos membros das brigadas nos davam um bônus que se trocava por 10 pesos e quando cheguei me disseram: ‘Olhe, aqui tem os bônus de junho, julho, agosto, setembro e outubro’».

«Quando disse a Goyo: ‘Temos 50 pesos’, rapidamente pediu emprestado um par de cavalos e fomos até a loja do povo, para comprar coisas com aquele dinheiro todo. Em seguida, as condições na casa melhoraram: compramos muitas coisas e, à maneira de celebração, levamos um porquinho. Foi a única vez que eu comi porco assado naquele lugar».

A BOLSA

Pouco tempo depois de terminada a Campanha de Alfabetização, Antolín continuou seus estudos na capital do país. Os dias como alfabetizador lhe deram a maturidade necessária para viver em coletivo, fora do ambiente do lar.

«Todo aquele grupo de jovens tinha demonstrado sua fidelidade ao projeto, de uma ou outra maneira, na alfabetização, ao viver de maneira conjunta».

«Sempre digo que agradeço à bolsa — acima do que me pôde ter ensinado como ‘russista’ e como profissional — ter-me ensinado a conviver, a socializar e que em nenhuma circunstância uma pessoa deve fechar-se em si próprio. Por não falar de coisas tão elementares como que caiu o botão da camisa, colocá-lo ou se depois de tomar banho, secar o banheiro».

«Para nós, a bolsa foi motivo de alegria. Ir alfabetizar — ainda que perdesse mais de 15 quilos, passasse fome e visse os primeiros mortos em minha vida — apesar de tudo isso, foi motivo de alegria».

«Era um momento muito enriquecedor, de todos os pontos de vista e a gente não se andava questionando onde havia menos. Os anos 1960, 1961, 1962, 1963 e 1964 foram uma etapa de uma solvência moral impactante».

«Foram tempos de exemplo, de identificação em todos os níveis. Lembro o ciclone Flora. Foram dias em que a crista da onda era altíssima e onde o critério fundamental era a moral. Podiam pedir que fizesse qualquer coisa e você acedia a fazê-lo, porque espiritualmente se identificava».

DESTINO FINAL: A SALA DE AULAS

«Nunca imaginei — e muito menos com aquela idade — que meu destino final seria dar aulas. Eu me senti atraído pela alfabetização, como atraiu todos os jovens que não foram insensíveis àquele momento histórico, mas não vi o fato de dar aulas como uma premonição do que depois terminaria sendo meu futuro», revela o antigo professor.

Os anos que seguiram após a década de 1960 deixaram marcas inapagáveis na vida profissional de Bárcena Luis: participou como tradutor do Primeiro Congresso do Partido Comunista de Cuba, da constituição da Assembleia Nacional e trabalhou no Ministério da Educação Superior.

Durante vários anos, atendeu às faculdades preparatórias, onde se treinavam os alunos que iriam estudar à União Soviética e foi professor da Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade de Havana.

Além de ser coautor da série didática Soyuz, para as faculdades preparatórias, tem recolhidas suas memórias no volume inédito Volver a la beca (o a mi Gorky).

«São vivências de um garoto que chegou à Serra Maestra com 14 anos, que a vida lhe ofereceu a oportunidade de continuar estudando, nada mais nada menos que na capital do país, que teve a circunstância de iniciar-se em uma especialidade totalmente nova — em Cuba toda a vida se tinham formado médicos, engenheiros, advogados, mas pessoas em russo… era primeira vez neste continente — e que teve, também, a circunstância de conhecer aqueles primeiros professores soviéticos que vieram.

«Se me pergunta: por quais convicções políticas foi para a Serra Maestra? Pois simplesmente porque triunfou a Revolução. Havia camponeses que não sabiam ler e era preciso ensiná-los. Toda a sociedade estava voltada a isso. Era outra circunstância. Havia carências materiais, mas havia solvência moral. Essas foram as circunstâncias de minha geração».

«Determinadas coisas em minha vida não teriam sido feitas como eu as fiz, mas aquela decisão de ir para a Serra e estar ali até 18 de dezembro de 1961 jamais a questionarei».

Diário Liberdade é um projeto sem fins lucrativos, mas cuja atividade gera uns gastos fixos importantes em hosting, domínios, manutençom e programaçom. Com a tua ajuda, poderemos manter o projeto livre e fazê-lo crescer em conteúdos e funcionalidades.

Doaçom de valor livre:

Microdoaçom de 3 euro:

Adicionar comentário

Diário Liberdade defende a discussom política livre, aberta e fraterna entre as pessoas e as correntes que fam parte da esquerda revolucionária. Porém, nestas páginas nom tenhem cabimento o ataque às entidades ou às pessoas nem o insulto como alegados argumentos. Os comentários serám geridos e, no seu caso, eliminados, consoante esses critérios.
Aviso sobre Dados Pessoais: De conformidade com o estabelecido na Lei Orgánica 15/1999 de Proteçom de Dados de Caráter Pessoal, enviando o teu email estás conforme com a inclusom dos teus dados num arquivo da titularidade da AC Diário Liberdade. O fim desse arquivo é possibilitar a adequada gestom dos comentários. Possues os direitos de acesso, cancelamento, retificaçom e oposiçom desses dados, e podes exercé-los escrevendo para diarioliberdade@gmail.com, indicando no assunto do email "LOPD - Comentários".

Código de segurança
Atualizar

Quem somos | Info legal | Publicidade | Copyleft © 2010 Diário Liberdade.

Contacto: info [arroba] diarioliberdade.org | Telf: (+34) 717714759

Desenhado por Ritech

O Diário Liberdade utiliza cookies para o melhor funcionamento do portal.

O uso deste site implica a aceitaçom do uso das ditas cookies. Podes obter mais informaçom aqui

Aceitar