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Segunda, 19 Junho 2017 17:24 Última modificação em Sábado, 24 Junho 2017 12:07

O fim do Novo Trabalhismo

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País: Reino Unido / Resenhas / Fonte: Causa Operária

[William Dunne] Em maio de 2007, por ocasião da renúncia do então primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair, o jornal britânico Telegraph anunciou o “fim do Novo Trabalhismo”. A manchete era impactante, no entanto, imprecisa. O New Labour (“Novo Trabalhismo”) continuaria no governo com o sucessor de Blair, Gordon Brown, até 2010, apesar do abandono da “marca” criada por Blair.

slogan“New Labour”, apareceu pela primeira vez em uma conferência do Partido Trabalhista (Labour Party) de 1994. Em 1995, Tony Blair se elegeria Secretário-Geral do partido, com a promessa de “modernizar” o trabalhismo. Gordon Brown faria um acordo para não se candidatar à liderança do partido naquele ano, evitando a divisão das alas “modernizadoras” do trabalhismo.

A “modernidade” do Novo Trabalhismo consistiria na adesão do partido à política neoliberal. Ainda em 1995, uma conferência partidária especial mudaria a redação da “Cláusula IV” do estatuto do partido. A cláusula afirmava, com todas as letras, a defesa pelo partido da “propriedade coletiva dos meios de produção”. Durante os governos trabalhistas ao longo do século XX a cláusula, adotada em 1918, foi livremente interpretada para justificar uma política de nacionalizações.

Sob a liderança de Blair, a redação seria alterada, substituindo-se o princípio de propriedade coletiva dos meios de produção por princípios vagos como “socialismo democrático” e “criar para cada um os meios para realizar seu verdadeiro potencial”. A aparente falta de política da nova cláusula IV tinha como razão de ser o fato de que o trabalhismo passou a apoiar a política neoliberal levada adiante na década anterior por Margaret Thatcher, com cortes de gastos públicos (apesar de um enorme aumento no orçamento com o aparato repressivo estatal), privatizações e redução dos impostos cobrados dos grandes capitalistas.

Em 1983, o Partido Trabalhista apresentou um programa mais à esquerda que o habitual até então. O programa levou a uma manobra da burguesia para derrotar o trabalhismo e reeleger Thatcher. O partido foi rachado em dois e disputou as eleições contra a primeira-ministra, que vinha de uma vitória na Guerra das Malvinas, uma guerra de rapina que tinha sido usada com sucesso para resgatar a popularidade de um governo amplamente odiado. Nesse cenário, Thatcher conseguiu uma vitória eleitoral. Na época, o programa à esquerda dos trabalhistas foi apresentado com responsável pela derrota.

A campanha para empurrar o Partido Trabalhista à direita, em meio às derrotas da classe trabalhadora na luta contra as políticas de devastação implementadas por Thatcher, finalmente levariam à vitória de Blair em 1995. Segundo o parlamentar conservador Conor Burns, durante um jantar em 2002, ao perguntarem à “Dama de Ferro” qual foi seu legado mais importante, ela teria respondido: “Tony Blair e o Novo Trabalhismo. Nós forçamos nossos oponentes a mudar”.

Em 1997, o Partido Trabalhista conquistaria sua mais ampla maioria parlamentar em toda a história. O Partido Conservador de John Major, primeiro-ministro que sucedeu Thatcher, estava muito desgastado para continuar aplicando o programa neoliberal contra a população. Os trabalhistas substituíram os conservadores para aplicar o programa da burguesia imperialista britânica. O novo programa do trabalhismo, neoliberal, estava cristalizado no manifesto de 1996, entitulado “Novo Trabalhismo, Nova Vida para a Grã-Bretanha”, apresentado como uma “terceira via”.

Esse papel miserável foi cumprido por partidos burgueses de esquerda em toda a Europa, como o Partido Social-Democrata (SPD) alemão, hoje na grande coalizão do governo de Angela Merkel, e o Partido Socialista (PS) francês, que acaba de enterrar-se nas eleições depois de aprovar uma reforma trabalhista desastrosa.

A avaliação de Thatcher durante aquele jantar de 2002 foi precisa. Os governos posteriores ao dela, incluindo, e especialmente, os trabalhistas, foram em muitos sentidos uma continuação de seu governo. Desde John Major, passando por Tony Blair e Gordon Brown, e depois com David Cameron, até chegar ao atual governo de Theresa May, o que se tem no Reino Unido é um contínuo governo Thatcher. O fim do Novo Trabalhismo demoraria ainda a chegar depois da renúncia de Blair.

Jeremy Corbyn

O começo do fim do Novo Trabalhismo só chegaria em 2015, com a eleição de Jeremy Corbyn como novo Secretário-Geral. O trabalhismo sempre foi ligado à classe trabalhadora, com ligações com os maiores sindicatos e centrais sindicais do Reino Unido. Em 2015, essa ligação levou a uma mudança de grandes proporções dentro do partido.

Contra os candidatos da burguesia dentro do partido, Corbyn foi eleito graças a um grande movimento de apoio à sua liderança na base do trabahismo, com apoio dos maiores sindicatos. Corbyn teve apoio da Unite, maior central do país, com quase 1,4 milhão de membros, e da Unison, segunda maior central, além de muitos outros sindicatos. Corbyn foi o segundo parlamentar a mais votar contra os trabalhistas dentro do próprio partido durante sua carreira de deputado, e se tornaria o Secretário-Geral representando um grande deslocamento à esquerda.

Em 2015, Corbyn seria eleito com 251,4 mil votos para liderar o partido, 59,48% do total. Em 2016, a vitória do Brexit seria usada como pretexto para convocar novas eleições no Partido Trabalhista, uma tentativa de golpe contra Corbyn. O resultado, no entanto, seria um duro golpe para a ala direitista do partido. Dessa vez Corbyn teria 313,2 mil votos, ampliando sua vantagem, com 61,85% dos votos.

Corbyn não chegou a modificar a “cláusula IV”, vigente até agora, mas está propondo a reversão de uma série de privatizações, o que lhe rende a acusação da imprensa burguesa de querer levar o Reino Unido “de volta aos anos 70”. No manifesto para as eleições gerais que foram realizadas este mês, Corbyn propôs a reestatização dos transportes, das empresas de energia e dos correios. Uma ruptura com o consenso neoliberal imposto por Thatcher.

O programa de Corbyn está à esquerda do New Labour em outras áreas. Para os trabalhadores, Corbyn propõe a criação de um Ministério do Trabalho, com orçamento para investir em políticas que garantam a proteção dos direitos trabalhistas. O programa também prevê o aumento do salário mínimo, a negociação coletiva por meio dos sindicatos, que todo trabalhador tenha acesso a sindicatos e a investigação pública de “listas negras” feitas pelos patrões contra determinados empregados para que esses não consigam mais encontrar emprego.

O deslocamento à esquerda com Corbyn ainda não significava o golpe final contra o Novo Trabalhismo. Desde que assumiu a liderança do trabalhismo, Corbyn era acusado de ser “inviável” eleitoralmente. Sob essa acusação, o novo Secretário-Geral estava constantemente ameaçado de ser apeado do cargo pela ala burguesa do partido, em luta para recuperar o controle.

Até que em abril desse ano, Theresa May resolveu convocar eleições gerais antecipadas, para evitar um desgaste maior até 2020. A manobra, porém, não foi bem sucedida. May perdeu sua maioria absoluta nas eleições realizadas no dia 8, e terá que governar em uma coalizão. Corbyn, por outro lado, ampliou a bancada trabalhista, ganhando 30 novos assentos. Agora 262 deputados ao todo, contra os 317 dos conservadores.

Esse resultado já tornaria possível a Corbyn formar um governo de minoria, em coligação com outras bancadas no Parlamento. Corbyn pediu a renúncia de May depois do anúncio dos resultados. Pela primeira vez desde que lidera o partido, as pesquisas de opinião começaram a mostrar o Partido Trabalhista à frente do Partido Conservador em eventuais eleições gerais.

Ou seja, nessas eleições gerais Corbyn destruiu o mito criado pela imprensa burguesa, ecoado por uma ala de seu próprio partido, de que um programa mais à esquerda seria inviável eleitoralmente. Um mito alimentado com força desde 1983 e que foi usado como justificativa para “modernizar” trabalhismo.

Dessa forma, Corbyn consolidou sua liderança, enterrou o Novo Trabalhismo, e agora fará oposição com um programa endossado pelos trabalhadores organizados, inequivocamente viável, pronto para derrotar os conservadores e assumir o governo. Um duro golpe no consenso neoliberal pós-Thatcher e nas políticas do imperialismo britânico. Desde já, Corbyn é um fator de crise do regime burguês no Reino Unido. A burguesia perdeu o controle de um dos dois principais partidos do regime.

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