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Sábado, 21 Abril 2018 19:00 Última modificação em Quinta, 26 Abril 2018 05:15

Para tempos fascistas

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País: Brasil / Antifascismo e anti-racismo, Batalha de ideias / Fonte: Diário Liberdade

[João Pedro Moraleida] Pasolini num texto chamado "Os jovens infelizes" faz uma série de colocações e questionamentos sobre o que denominava de "novo fascismo" da sociedade italiana na dec. de 70. Identificava esse movimento como um não exterminío do fascismo passado; junto a uma política clériga; a consolidação da sociedade de consumo de massa e, as responsabilidades dos pais e filhos - históricos - na colaboração continuada do fascismo, por não o terem eliminado de vez; por ainda afirmarem que a única história possível é a história burguesa; pela massificação das histórias e das lutas dos trabalhadores e pobres italianos. Tudo isso, de acordo com P.P., corroborado pela classe intelectual e culta, os pais, que agora assistem a condenação de seus filhos e de si mesmos com a emergência desse "novo fascismo". Nesse texto de 1975, alguns trechos podem nos servir como plataforma estratégica, não somente de ação, mas talvez uma estratégia de pensamento e reflexão política.

"[...] A mim me resta disso tudo uma tristeza só
Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção
O que será do verso sem luar?
O que será do mar, da flor, do violão?
Tenho pensado tanto, mas nem sei [...]"
Lunik 9, Gilberto Gil

 

O sentimento é histórico, nos lembra Pier Paolo, ele é "aquilo que se experimenta, que é real" e completa, "meu sentimento é, repito, de condenação". Essa ideia se dá numa comparação com as tragédias gregas, donde os filhos sempre pagam pela culpa de seus pais e, inversamente são punidos também. Erra, quem hoje no Brasil postula a tese do não avanço do conservadorismo e, mais ainda, da não existência e crescimento de um pensamento e ação fascistas. Erra pois, desconsidera um elemento que para além de histórico é transitório no fascismo, seu caráter de eternidade e que é um caráter violento, pois desloca a violência simbólica e da guerra constante que nos estrutura, para uma violência efetiva, pura e pragmática.

Lembremos das cenas de  dia 6 de abril onde um sujeito de nome Oscar Maroni incitava uma multidão frente a seu clube de prostituição, com um cenário composto pelas imagens do juiz Sérgio Moro e Carmem Lúcia. Ouvimos através dos vídeos esse grupo organizado pelo MBL pedir que Maroni despi-se mulheres no palco; que jogasse suas roupas íntimas para eles e que permitisse o "sexo livre" - assim foi dito - com as mulheres do clube de Maroni. Essas cenas foram momentos de comemoração da prisão do ex-presidente Lula, mas não só isso, foram também o instante em que a decadência e a estética do fascismo aparece, novamente como prática, nesse jogo de deslocamento da violência simbólica para a efetiva.

Erra que crê, que são apenas momentos reativos de uma direita tosca e sem força. Reativos sim, mas de demonstração do que são capazes e de seu "tenebroso" e sujo entendimento do mundo e da situação atual. "São máscaras de alguma inciação bárbara", diz Pasolini. Esses mesmos da esquerda, de uma dita esquerda intelectual que nega o avanço da direita, não aprendem ou não querem ver que enquanto não se combate essa eternidade fascista; essa estetização do mal, como na frente do Bahamas Clube de Oscar Maroni, não será possível criar uma nova história no conceito e na prática fora da estrutura bárbara e colonial que assentamos, nós brasileiros. De que nos adiantam jovens cultos, uma juventude de "falsa tolerância", de classe-média, se não conseguem compreender e se aliar numa luta popular contra o avanço dessa decadência fascista? No mesmo texto o poeta perguntava: "Mas o que eles podem fazer com sua sofisticação e cultura?"

O que fazemos - e são reflexões para todos nós - para escapar e lutar contra a condenação? Vamos nos propor a agir contra o controle cada vez maior desses grupos, seja na sociedade civil ou nas cadeiras jurídicas, na política, na imprensa e na família? E uma re-memoração daqueles que em nossa história se valeram da luta incessante contra o "fascismo brasileiro"? É uma juventude - a que gritava para Maroni; ou a que aplaudiu de cabeças baixas e com olhos fundos e vazios a intervenção militar no RJ; ou a que, aposta na teatralização da violência cotidiana, com os linchamentos e criações do "bode expiatório", que canalizam suas pulsões violentas para figuras públicas - sem memória histórica, aliada a imobilidade e a um desespero pelo mal-estar. Novamente Pasolini - nesse texto que devemos nesse momento recuperar para a ação e pensamento -diz: "Portanto, a culpa dos pais não é somente a violência do poder, o fascismo. Mas é também: primeira, a remoção da consciência, por parte dos não antifascistas, do velho fascismo, e estarmos confortavelmente liberados de nossa profunda intitmidade (Panella) com ele (termos considerado os fascistas 'nossos irmãos cretinos', como diz uma frase de Sforza recordade por Fortini); segundo, e acima de tudo, a aceitação - tanto mais culpável quando mais inconsciente - da força degradante e dos verdadeiros, imensos geneocídios do novo fascismo. Por que tal cumplicidade com o velho fascismo e por que tal aceitação do novo fascismo?"

É fazer da prática de combate a esse crescimento e avanço fascistas o entendimento da situação atual, e não negá-la, num grande equívoco. E esse combate e resistência não pode se valer da prática individual, somente através da coletividade é que se dá, muito menos pelas plataforma virtuais, mas por projeto e re-memoração de nossa história, principalmente na juventude, essa que grita e pede a morte e a violência, mas também da intelectualidade que a tolera.

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