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Diário Liberdade
Sábado, 25 Março 2017 13:51 Última modificação em Terça, 28 Março 2017 17:36

Mary e Lizzy Burns

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/ Batalha de ideias / Fonte: PGL

[Isabel Rei Samartim] É bem certo que nas circunstâncias atuais uma pessoa pode experimentar fortes vontades de dar-se à água da vida, como chamam ao uísque na Irlanda. E não só pela excelência da aguardente, mas também e sobretudo pela pressão existencial duma vida sem esperança. Sem água. Assim falavam as más línguas da Mary Burns, proletária irlandesa, ativista dos movimentos de libertação social no Reino da Inglaterra nos meados do século XIX.

Ao professor e politólogo Xavier Vilhar Trilho, autor de A remodelação ‘federal-confederal’ do Reino da Espanha (Laiovento, 2001).

Ela e o alemão Friedrich Engels, filho primogénito de família bem posicionada, conheceram-se em Manchester, onde ela trabalhava e aonde ele tinha viajado recém nomeado responsável dos negócios do pai. Era o ano de 1843. A exploração da produção da Irlanda e da mão de obra irlandesa eram a base da riqueza inglesa. O nacional sim tinha a ver com o económico e, naturalmente, com o político. O Friedrich chegou a descobrir ao lado da Mary que aquela estranha ideia das nações tinha a ver até com o pessoal. Ela introduziu-o nos ambientes populares e mostrou-lhe as condições de vida dos operários irlandeses, confrontando-as com os salários e trabalhos mais dignos dos ingleses. Engels publicaria no ano a seguir o seu ensaio sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra. E, junto com o Karl Marx, cairia numa grave contradição no Manifesto de 1848 ao identificar o proletariado com a nação para, no parágrafo a seguir, dizer que o governo do proletariado faria com que desaparecessem as demarcações e antagonismos entre as nações.

Mary Burns sabia, pela experiência da nação sem estado, que uma democracia encabeçada pela classe trabalhadora acentuaria ainda mais as diferenças nacionais porque, se bem corrigiria os abusos autoritários dos governos supremacistas, ao tempo estimularia os elementos nacionais próprios e, portanto, de interesse comum como a língua, os costumes, as artes, que são protagonistas da vida das pessoas de qualquer nação. Não por acaso -acrescentamos hoje- estes elementos fundamentaram os estudos antropológicos, etnográficos, sociológicos, musicológicos e filológicos a nascerem naquela época.

É notória a mudança de opinião de Marx a respeito da situação colonial da Irlanda. Informado por Engels durante décadas, só em 1867 concluiu que as relações económicas entre a Inglaterra e a Irlanda tinham uma forte componente de supremacia nacional que era preciso desfazer para atingir a soberania da classe trabalhadora. Marx escreve esta hipótese numa carta ao seu amigo: Ou confederação ou, se isso não for efetivo, separação definitiva. Por desgraça, Mary Burns finara em 1863, ano da publicação dos nossos Cantares Galegos, e por isso não sentiu a alegria desta mudança propiciada por ela com o seu trabalho e ativismo. Solteira, por negar-se a cumprir os costumes religioso-burgueses. Sem filhos, por dedicar-se a melhorar as condições sociais das gerações futuras. Sem textos escritos, talvez por não ter aprendido a escrever. Mas intensamente amada segundo sabemos pelo seu marido e a virada de rumo do pensamento comunista. Perdão por dizer comunista.

Nada em Manchester em 1823 de emigrantes irlandeses em Salford, Mary Burns foi durante vinte anos companheira, confidente e professora do seu namorado Friedrich Engels. Ele, chefe na fábrica de algodão e amante confesso, nunca conseguiu convencê-la para ela deixar de trabalhar. Operária, ativista, provavelmente oradora, com certeza conspiradora, amante e revolucionária, mostrou-lhe o caminho da democracia através da compreensão das realidades nacionais, mais além da ideologia totalitária dos estados em formação. A irmã Lizzy presenciou por ela a mudança de Marx e acompanhou Engels depois da morte da Mary, até à sua própria morte em 1878, dando um exemplo de ancestral união por sororato em que a irmã mais nova releva a finada em todas as suas funções políticas, sociais e familiares. No último dia da vida de Lizzy Burns, ela formalizou o casamento com Engels reconhecendo assim a ligação, não aceite pela sociedade, entre o rico proprietário e as proletárias Burns num exercício único de ativismo contra as convenções burguesas da época.

As nações não são os estados, mas uma fina pele que nasce e cresce connosco. Ficam sempre expostas, são delicadas e vulneráveis, como nós, porque somos nós. As nações só viram de ferro quando enferrujadas pela ferrugem dos estados. De seu são longas e subtis. Muito mais velhas do que o Capitalismo, o seu caminho continua depois dele. Comunidades linguísticas, sociais, políticas, percebidas como conjuntos humanos auto-identificados, podem ser desconhecidas para si mesmas e só se manifestar com clareza por comparação. As nações têm sido cruéis entre elas, têm querido dominar-se umas às outras, têm-se enfrentado e causado muitas feridas. Não nasceram ontem. Arrastam muitas dívidas históricas. Precisam de muita água da vida. Era ingénua a ideia de que a revolução proletária iria produzir-se à margem da condição nacional das pessoas, como inicialmente promulgou a análise marxista. Por fortuna, graças às Burns os autores revisaram esse assunto sem importância que, ao cabo, desembocou mais tarde na independência da Irlanda.

Fontes:

Wikipédia: Mary Burns

Salford Star: Mary Burns Superstar

Jorge Enea Spilimbergo: La Cuestión Nacional en Marx: El ejemplo del caso colonial irlandés.

Rosdolsky, Roman: Friedrich Engels y el problema de los pueblos “sin historia”: la cuestión de las nacionalidades en la revolución de 1848-1849 a la luz de la “neue rheinische zeitung”, México, Pasado y Presente, 1980.

Mike Dash (Smithsonian): How Friedrich Engels’ Radical Lover Helped Him Father Socialism.

Marx, K. e Engels, F.: Manifesto Comunista

Oliver O’Hanlon (The Irish Times): An Irishman’s Diary on Friedrich Engels and Ireland

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