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Diário Liberdade
Sábado, 03 Fevereiro 2018 12:32 Última modificação em Quinta, 08 Fevereiro 2018 12:47

O passado comunista oculto de Frank Sinatra

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País: Estados Unidos / Resenhas / Fonte: Carta Maior

[Martin Smith] Muitos se lembram de Sinatra como um artista que se posicionou a favor de Ronald Reagan, que adorava passear ao lado de mafiosos e que usou a todos os que o rodeavam. Creio que Sinatra foi todas essas coisas, e algumas ainda piores, e essa é uma das facetas que não devem ser ignoradas.

Mas também houve outro, um Frank radical, que ficou enterrado pela poeira dos anos e as areias do tempo. Em seu momento de maior popularidade, nos Anos 40, Sinatra foi apontado como um “vermelho”. Foi uma das primeiras estrelas de sua era a se posicionar do lado dos pobres e oprimidos. Assim como Pablo Picasso, John Steinbeck, Billie Holiday e Charlie Chaplin, Sinatra utilizou sua arte para desafiar o status quo. Em 1946, um jornalista perguntou a ele qual pensava ser o maior problema que os Estados Unidos enfrentavam, e sua resposta foi: “a pobreza. Essa é a pior espinha... todas as crianças do mundo deveriam ter sua ração diária de leite”.

Frank Sinatra estreou como solista no dia 30 de dezembro de 1942, num dos santuários da era do swing: o New York Paramount Theatre. O espetáculo estava programado para quatro semanas e Frank aparecia no rodapé do cartaz, acompanhando Benny Goldman, o rei do swing e diretor de banda número um do país.

O que acontece naquela primeira noite passou a formar parte da história não escrita da música. Durante uma hora, Benny Goodman levou o público ao delírio com sua música, antes de anunciar: “ e agora, Frank Sinatra”. O estreante tirou a cabeça para fora da cortina, e ficou gelado. Imediatamente, as garotas da plateia soltaram um grito ensurdecedor. Goodman exclamou: “que diabos está acontecendo?”. Sinatra sorriu, correu até o microfone e cantou For Me And My Gal. Foi um caos.

A Tommy Dorsey Band ficou para trás. Houve problemas contratuais, claro, mas se solucionaram no fim das contas. Poucos dias depois do primeiro concerto no Paramount, o publicitário George Evans assistiu um dos shows de Sinatra. Viu o impacto que ele tinha entre os mais jovens, e sobretudo as mais jovens, e rapidamente deu um jeito de se aproximar do cantor, prometendo que queria ser o agente que o transformaria em estrela. Evans falou com alguns colunistas da imprensa, cuidadosamente escolhidos, sobre um novo artista cujo sucesso chegaria a ser maior o de Bing Crosby, e os convidou a assistir um dos seus espetáculos. Contratou doze garotas para que desmaiassem no momento em que Sinatra entrasse no palco. Mas nem precisava ter perdido esse tempo: trinta pessoas desmaiaram de forma espontânea e tiveram que ser retiradas do auditório.

Durante as quatro semanas posteriores, o Paramount continuou lotados. Ao acabar o contrato, o teatro ofereceu a Sinatra mais quatro semanas, desta vez como atração principal do cartaz. A histeria nos concertos chegou a níveis impressionantes. As adolescentes gritavam e desmaiavam, e algumas mais excitadas lançavam seus sutiãs ao palco. Era a era das bobbysoxers, e Frank era seu ídolo favorito. Eram chamadas assim pela roupa que usavam: meias (socks) brancas até o tornozelo com sandálias ou mocassins brancos ou marrons, saias plissadas e suéteres cor pastel.
George Evans batizou seu novo cliente como “A Voz”, e passou a reescrever seu passado.

Diminuiu sua idade, dizendo que nasceu em 1917 e não 1915, para aproximá-la mais à das suas fãs. O apresentou como um “filho da grande depressão”, criado entre a pobreza e as penúrias. O garoto que sempre odiou as aulas de educação física foi transformado em lenda esportiva colegial.

Se dizia que Frank jogava rúgbi contra grandalhões de 150 kg, corria como um Jesse Owens e havia treinado com os Harlem Globetrotter. Os pais de Sinatra eram imigrantes, mas passaram a ser conhecidos como norte-americanos autênticos. Dolly a parteira de Hoboken que o ajudou a nascer, se tornou uma enfermeira da Cruz Vermelha que serviu o país na Primeira Guerra Mundial. Do dia pra noite, Frank se transformou na personificação do sonho americano.

Evans estimulava as bobbysoxers a criar seus próprios clubes de fãs, e a escrever cartas aos jornais sobre seu herói. Cada clube de fãs recebia um certificado assinado pelo próprio Frank. Meses depois, Evans já contava aos jornalistas que havia mais de mil clubes de fãs de Sinatra em todo o país, com nomes como The Moonlit Sinatra Club, The Slaves of Sinatra e The Flatbush Girls Who Would Lay Down Their Lives For Frank Sinatra Fan Club. Ao menos 250 desses clubes distribuíam suas próprias publicações, e Sinatra recebia uma média de 5 mil cartas por semana.

Os analistas sociais estavam horrorizados. Diziam que as fãs de Sinatra eram garotas gordas e insossas, de famílias da classe baixa, aquelas que ninguém nunca convida para sair e com poucas possibilidades de ter um namorado. Um congressista chegou a dizer que Frank era “o principal instigador da delinquência juvenil nos Estados Unidos”.

A histeria ao redor da figura de Sinatra não tinha precedentes. Nos concertos de Bing Crosby havia garotas que desmaiavam, mas nada em comparação com o que acontecia num concerto de Sinatra. Muitos se perguntavam qual poderia ser a causa desse delírio coletivo.

Os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial em 1942, mudando a vida de milhões de pessoas. Os psicólogos afirmavam que o fenômeno Sinatra era um produto dessa experiência. Os pais, irmãos e namorados ausentes haviam deixado um vazio nas vidas dessas pessoas. Para muitos, a música e o cinema ofereciam uma forma de fugir dessa dura realidade, das penas e do horror. Ademais, a falta de jovens solteiros também fazia projetar as fantasias sexuais sobre um objeto impossível de conseguir, uma opção segura. Sinatra era impossível de conseguir em dois sentidos: era uma estrela, e portanto estava fora do alcance da maioria, e estava “felizmente casado” com Nancy. La adoração por Sinatra provocava tantas emoções sexuais nas garotas que muitas sequer entendiam.

O próprio cantor disse, se referindo à atração que despertava, que “eram anos de guerra e havia uma grande solidão. Eu era o sujeito da loja da esquina, o cara que tinha ido à guerra”.

Sua popularidade também se desenvolveu junto com a cultura juvenil, fazendo dele o primeiro grande ídolo adolescente, o primeiro ícone pop. Até então, a infância e a adolescência eram bem mais curtas. Antes da Primeira Guerra Mundial, muitas crianças começavam a trabalhar aos 12 ou 13 anos. Ao chegar a Segunda Guerra Mundial, a idade em que se abandonava a escola havia aumentado bastante, situando-se entre os 15 e os 16 anos. Cada vez mais filhos de trabalhadores cursavam estudos superiores. Aqueles jovens tinham maior poder aquisitivo que seus antepassados, e o gastavam com roupa, maquiagem e música.

Nos Anos 40, alguns álbuns conseguiram superar pela primeira vez a marca de um milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos. Um deles foi White Christmas (1942) de Bing Crosby, que chegou às 30 milhões. Chattanooga Choo” (1942), de Glenn Miller, também teve vendas milionárias. Mas nos Anos 30 não era assim, nem mesmo Bing Crosby foi capaz de alcançar tal marca. Essa tendência se acelerou ainda mais nos Anos 50 e 60. As vendas de discos nos Estados Unidos aumentaram de 10 milhões de dólares em média nos Anos 30 a 260 milhões em 1956. Em 1973 já era de 2 bilhões. Em 1970, cada criança ou adolescente entre 5 e 19 anos gastou ao menos cinco vezes mais do que o gasto em 1955, em média. Frank pegou esse trem bem na hora da partida, e permaneceu a bordo durante todo o trajeto.

Havia também outro tipo de fã de Frank Sinatra: a representada no famoso pôster com Rosie the Riveter, usado no recrutamento de mulheres para a indústria nos tempos de guerra. A Segunda Guerra Mundial deu às mulheres maior acesso aos trabalhos que tradicionalmente eram exercidos por homens. Pela primeira vez, as mulheres trabalhadoras podiam se manter de forma independente economicamente, e faziam valer seu direito a serem tratadas como iguais. Exigiam “liberação”, embora só conhecessem o direito a fumar, a beber e a dormir livremente com quem quisessem, como os homens.

Sinatra também teve um enorme impacto sobre os garotos. Muitos gostavam da sua música e tentavam imitar seu estilo. Mas também havia os que se queixavam. Numa foto muito conhecida se pode ver um grupo de marinheiros atirando tomates num anúncio para um concerto de Sinatra. O motivo? Simples: enquanto milhões de jovens americanos iam à guerra – o soldado raso médio ganhava 40 dólares por mês e provavelmente passaria anos sem ver a sua amada – Sinatra ficou em casa. Havia sido considerado não apto para o serviço militar, entre outras cosas, por ter um tímpano perfurado. Para piorar as coisas, Sinatra ganhava um milhão de dólares por ano e certamente faria essa amada que ficou para trás perder a cabeça.

Entretanto, para milhões de pessoas, e muitas delas nas Forças Armadas, a voz de Sinatra expressava maravilhosamente seus sentimentos de amor, solidão e saudades. Os títulos das canções falam por si: Saturday Night (Is The Loneliest Night Of The Week), I’ll Be Seeing You, When Your Lover Has Gone, Homesick That’s All. Uma das canções de Sinatra mais importantes daquela fase foi Nancy (With the Laughing Face), lançada em 1945. Escrita pelo comediante Phil Silvers, estava inspirada na filha do cantor. A canção que Sinatra cantava para sua pequena fazia os soldados pensarem em suas próprias mulheres e filhos em casa. Como escreveu Gene Lees, em artigo para a revista Down Beat, “dizia o que eles queriam dizer, e o que elas queriam ouvir”.

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