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Diário Liberdade
Quinta, 05 Abril 2018 14:17

As mulheres e a reconstruçom do comum. Silvia Federici

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Chema Naya

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Com o Teatro Principal de Ponte Vedra ateigado começava a XXXV Semana Galega da Filosofia, que baixo o título “A Filosofia e o Comum” coloca esta semana o foco do pensamento na Galiza sobre um conceito com tanta potência como a ideia do comum.


 Aposta na vertebraçom dum outro marco político e social contraposto aos interesses corporativos e a procura do benefício duns poucos, um termo que contesta à acumulaçom da riqueza e as hierarquias societárias da atualidade. Em resumo, umha mudança de paradigma cara fórmulas de tomada de decisons diretas, democracias radicais e o controlo popular e coletivo da esfera reprodutiva e produtiva da vida. A ideia do comum, requer logo umha nova cosmovisom baseada num princípio geral de cooperaçom entre as despojadas que pode e deve materializar-se numha amalgama de formas múltiplas.

Este foi o pano de fundo em que decorreu a conferência de Silvia Federici (Parma, Itália 1948) historiadora, investigadora, teórica marxista desde a olhada do autonomismo italiano, ativista radical feminista e professora da Universidade de Nova Iorque. Na apresentaçom prévia à intervençom da professora italiana, marcou-se o acento em quatro eixos fundamentais da sua achega teórica: O comum (como fórmulas de produçom e democracia comunitárias), a ampliaçom do sujeito revolucionário desde o marxismo (visibilizando a quantidade de trabalho em condiçons de escravatura existente numha economia capitalista globalizada e o seu peso na acumulaçom de capital), sobre o trabalho nom remunerado, realizado polas mulheres, que sustem o sistema (o trabalho reprodutivo, de cuidados ou doméstico que realizam grátis as mulheres dentro do núcleo familiar) e a crítica de Federici à acumulaçom originaria na obra de Marx. Neste ponto a teórica nega que o capitalismo seja umha fase mais avançada que o feudalismo, trataria-se da saida que a burguesia em expansom encontrou para garantir o domínio social, e entende que o capital privado precisa expropriar violentamente e de jeito constante o capital comum na sua luita por perpetuar-se.

Um sonoro aplauso deu começo à intervençom da autora de obras como “Calibám e a Bruxa. Mulheres, corpo e acumulaçom originaria”, “Revoluçom em ponto zero. Trabalho doméstico, reproduçom e luitas feministas” ou a sua última produçom “O Patriarcado do Salário. Críticas feministas ao marxismo”.

O Comum, as fórmulas comunitárias, nom som apenas umha forma de produçom antiga, senom também o que vai vir”. Mais ou menos estas fôrom as suas palavras no início da exposiçom do conceito do comum, Federici começou fazendo um alegado à vida, a comunidade como possuidora da riqueza e da capacidade da toma de decisons, a vida como cooperaçom e nom como concorrência. Recolhendo o fio da sua obra Calibám e a Bruxaabordou a apropiaçom da força produtiva e reprodutiva das mulheres no processo de acumulaçom originária, assim como os mecanismos utilizados para tal fim desde a queima de bruxas ou a destruiçom dos saberes coletivos femininos (curativos, agrícolas…) até a criminalizaçom e demonizaçom das redes afetivas e comunitárias entre mulheres,situando o foco na perspetiva do comunalismo como saída do feudalismo na altura e como necessidade para a erradicaçom do capitalismo e do patriarcado.

Recém chegada da serra de Oaxaca em México e dumha estadia em Guatemala, onde mativo contato com as comunidades indígenas e profundas conversas com as mulheres e os feminismos desses territórios, comentou a completa ligaçom também nessas comunidades entre o corpo das mulheres e o território comum como espaços, ambos os dous, de conquista e de expropiaçom por parte do capital, e relacionando de forma dialética a natureza, como território, e as mulheres, como classe, chegou a defesa do controlo do comum a todos os níveis (sexual, poder decisório, alimentar, terra, vivenda…) como única formula de defesa das despojadas e da terra.

Esta nova cosmovisom, da qual resulta incerto atopar propostas concretas para a realidade da Galiza de hoje, a chamada comunalidade, abrolha da síntese teórica de experiências práticas de luitas e processos coletivos passados e atuais na defesa da reproduçom e produçom coletiva da vida social, da força dos costumes próprios dum território ou da amplitude teórica dos feminismos. Com piscadas ao autonomismo italiano e o marxismo de-colonial puxo na mesa a sua aposta de açom política coletiva que o auditório recolheu com aplausos mas que também suscitou debate na hora das perguntas do público, a criaçom dum amplo raizame de contrapoderes para a reconstruçom efetiva do comum, umha cultura de resistência e guerrilha que dispute a hegemonia e influência do Estado e do Capital, assembleias de bairro, rurais e a múltiplos níveis que desenvolvam experiências comunitárias. Exemplificou esta disputa ao poder estabelecido através dalgumhas experiências libertarias, o zapatismo ou movimentos sociais de massas como o 15-M ou o movimento feminista na greve do passado 8-M. Conclui que o comum é a mudança de paradigma, que necessariamente vira com umha participaçom central da mulher, cara à colaboraçom e o compartido que dota de segurança e fai melhor a vida da comunidade, desde o respeito à natureza e as diversas formas da vida social, da capacidade de transformar este novo imaginário coletivo e convertê-lo em formas de poder político coletivo das despojadas, fora do Estado burguês, radicam as capacidades de transformaçom social.

A segunda parte da conferência, resultou tam ou mais interessante que a primeira num vivo debate entre o público e Federici onde se abordárom temas candentes na agenda feminista como a prostituçom ou as barrigas de aluguer ou a festa e ócio populares coma reafirmaçom da identidade comunitária e das luitas coletivas. Rematou a jornada com a necessidade de começar a desenvolver o agir político noutra ótica, mestiça e radical, e recalcando que qualquer fórmula de individualismo e concorrência é um lastre para os movimentos sociais e as despojadas.

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