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Diário Liberdade
Segunda, 09 Abril 2018 23:30 Última modificação em Sábado, 14 Abril 2018 14:44

Quando o povo libertou Chávez

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País: Venezuela / Resenhas / Fonte: Diário Liberdade

[Eduardo Vasco] Final da noite de 11 de abril de 2002. A oposição, que havia tramado o golpe por mais de um ano, encurrala Chávez dentro do Palácio de Miraflores, sede do governo, em Caracas. O dia havia sido de uma grande encenação trágica na qual a direita golpista – militares, empresários, políticos opositores, imprensa e o dinheiro dos EUA – executara uma carnificina a fim de culpar o governo e, assim, derrubar Chávez.

Com fuzil e pistola na mão, o presidente vê seus companheiros também de armas em punho. Militares legalistas declaram estarem prontos a resistir com alguns armamentos e dois mil homens. Recebe uma ligação de Fidel, que o aconselha:

“Salve a tua gente e coloque-se também a salvo. Não te sacrifique, não faça como Allende. Ele era um homem sozinho, enquanto você tem a seu lado grande parte do exército. Não abandone a presidência, não renuncie. Negocie com dignidade, mas não te sacrifique, porque isso não acaba aqui.”

Freddy Bernal, prefeito do Município Libertador, um dos presentes na resistência popular desde o início daquele dia, tenta convencer Chávez a resistir e diz estar disposto a lutar com o povo nas ruas. Nos arredores de Miraflores, ainda havia combativos apoiadores.

O ministro da Defesa, José Vicente Rangel, também é pela resistência.

Entretanto, na madrugada de 12 de abril, Chávez se entrega, pouco antes do prazo final dado pelos golpistas, alegando evitar um derramamento de sangue. Mas não renuncia. Sai do prédio e, em meio a uma multidão, entra no carro que o levará ao Forte Tiuna, quartel-general do exército na ilha de La Orchila, onde ficará preso.

Em meio aos gritos de “Viva Chávez” e “Viva Bolívar”, ouve uma voz anônima. “Presidente, presidente, nos rebelaremos, esse quiprocó vai terminar.” Às lágrimas, vendo o carro ir embora, um jovem comenta: “O povo está com o presidente e sairá para apoiá-lo, você verá.”

Era quase impossível. Naquela manhã, os grandes meios de comunicação liam a falsa renúncia de Chávez à presidência, a qual ele nunca assinou. Os golpistas, assim, dissolvem as instituições estatais e anulam a Constituição que havia sido proposta por Chávez quando se elegeu em 1998 e aprovada em votação popular em 1999.

No primeiro dia do golpe de Estado, inicia-se uma intensa repressão contra os simpatizantes de Chávez nas ruas, mostrando o começo de uma verdadeira ditadura. Mais de 50 pessoas morrem nas mãos da polícia e o regime golpista inicia uma varredura de chavistas dos órgãos públicos, todos – militantes e funcionários – tratados pela feroz campanha midiática como bandidos e criminosos.

Apesar disso e da autocensura da imprensa golpista, espalham-se de boca em boca boatos de que Chávez estaria preso no Forte Tiuna. Aos poucos, uma multidão se aglomera na entrada e nos acessos ao local para exigir a liberdade do presidente. A deputada Iris Varela e a ministra Maria Iglesias lideram a ação. A filha de Chávez também consegue entrar em contato com Fidel Castro e grava um depoimento que é veiculado pela TV cubana e noticiado pelos correspondentes de imprensa do mundo todo em Havana.

Na tarde do dia 12, as massas começam a descer os morros, saem de seus bairros e favelas e vão para as ruas de todo o país protestar, aos milhões. As rádios comunitárias propagam as informações censuradas pelos meios burgueses.

“As pessoas organizam-se num movimento espontâneo, com cartazes improvisados, e os muros e paredes se convertem em meio de difusão popular. Os golpistas param a comunicação via celular, mas a notícia passa boca a boca e com megafones, enquanto que jovens motorizados percorrem cada canto de Caracas difundindo-a por toda parte. O maior 'telefone sem fio' da história moderna mobiliza milhões de pessoas em poucas horas”, relata o autor italiano Núnzio Renzo.

Em vários lugares as massas permanecem em prontidão e se revezam em vigília, especialmente no Forte Tiuna, aguentando a tentativa violenta da polícia para dispersá-las, segurando cartazes e o famoso e popular livrinho azul – a Constituição Bolivariana.

O vice-presidente, Diosdado Cabello, organiza os Círculos Bolivarianos na periferia de Caracas para marchar ao econtro de seu líder. O governador de Aragua, Didalco Bolívar, faz o mesmo com seus seguidores, ao cercar a base aérea de Maracay.

Todos os bairros populares de Caracas estão em ebulição. Miraflores também começa a se encher de gente. Os explorados não tolerarão esse golpe e essa prisão, que não são só contra Chávez, mas contra todo o povo oprimido. As horas passam e o exército de descamisamos não para de chegar. “Chávez, amigo, o povo está contigo”, cantam.

No final da noite, os militares golpistas levam Chávez para outra prisão, na base logística da Baía de Turiamo, a oeste de Caracas, entre os estados de Aragua e de Carabobo. Em Caracas, permeado de indignação com o golpe e a brutalidade policial, o povo chavista transforma sua ira em bloqueio de estradas e reage à violência como fazem todos aqueles que já não aguentam mais as humilhações.

A onda de manifestações populares se alastra para todos os cantos no dia 13 e para Caracas. Os golpistas começam a se preocupar seriamente com a revolta popular e a possibilidade de que os militares do baixo escalão percebam o que está acontecendo e se juntem ao povo. Os oficiais do alto escalão haviam afastado os seus pares indecisos, bem como escondido a verdade de seus subordinados.

O grande protesto chega definitivamente a Miraflores. Os guardas, próximos ao presidente legítimo, embora sob ordens dos golpistas de disparar contra a multidão, a recebem calorosamente. Com fotos de seu líder, agora preso político, meio milhão de pessoas pede sua volta imediata. “Queremos Chávez, Queremos Chávez.” Espremido no portão, um manifestante responde ao questionamento de um jornalista estrangeiro do porquê de estarem ali: “Para buscar o nosso presidente Hugo Chávez Frías. Mesmo que nos custe a vida queremos que ele esteja aqui. Esse é o nosso sonho, por nossos filhos, queremos o nosso presidente!”

Junto aos militares constitucionalistas do lado de fora, os guardas organizam a retomada do prédio presidencial. Parte dos golpistas consegue fugir. Os membros do governo legítimo voltam, um a um, escoltados pelas massas.

Nada disso é mostrado na televisão até que consegue-se reconstituir o sinal da estatal VTV que, finalmente, logra anunciar a recuperação de Mirafloes e denunciar que o que ocorreu foi um golpe de Estado e a prisão ilegal de Chávez, que não renunciou.

Cabello é juramentado como presidente temporário em Miraflores. Sua primeira medida é ordenar a libertação de Chávez, restabelecendo a ordem constitucional das forças armadas. As tropas percebem que foram enganadas e se colocam em defesa da legalidade, sob o comando dos oficiais constitucionalistas que difundem a verdade pelo país e organizam a soltura do presidente.

Às três horas da manhã do dia 14, a VTV noticia que Hugo Chávez chegará a qualquer momento em Miraflores. Lágrimas e risos estampam o rosto do povo venezuelano que comemora a vitória nas ruas de todo o país.

Neste momento, a direita nacional já está escondida em suas confortáveis mansões e apartamentos de luxo, ou em qualquer lugar que a permita chorar de ódio sem ser ouvida.

Às quatro horas, as massas emocionadas que lotam os arredores de Miraflores cantam: “Chegou, chegou!”.

Soldados comemoram junto ao povo na recepção do helicóptero que traz o Comandante. Ele desce e acena sorridente para o povo, aclamado como um libertador de seu povo.

Chávez está livre! O povo o libertou.

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Renzo Amenta, Núnzio. A guerra de Hugo Chávez contra o colonialismo. São Paulo: Expressão Popular, 2010. PDF na íntegra: https://gz.diarioliberdade.org/archivos/a_guerra_de_hugo_ch%C3%A1vez_contra_o_colonialismo.pdf

“La revolución no será transmitida”. Venezuela. 2003. Direção: Kim Bartley, Donnacha O'Brian. 74 min. Disponível com legendas em português: https://www.youtube.com/watch?v=MTui69j4XvQ

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