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Diário Liberdade
Quarta, 23 Outubro 2019 17:30 Última modificação em Quarta, 13 Novembro 2019 16:41

O ataque de Trump aos curdos da Síria e duas hipóteses

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País: Curdistám / Direitos nacionais e imperialismo / Fonte: O Diário

[Nazanin Armanian] Na ofensiva turca contra a Síria pouco é o que querem que pareça. Nem os EUA retiraram as suas tropas de ocupação, nem a Turquia realiza qualquer operação de defesa da sua «segurança».

Os EUA prosseguem a criminosa estratégia visando dominar todo o Médio Oriente, se necessário através de uma situação de caos total. E pode suceder que os problemas internos de Trump o conduzam também – como conduziram outros presidentes antes dele – a aventuras de consequências cada vez mais perigosas.

Milhares de pessoas, incluindo crianças, idosos, doentes e pessoas com deficiência que viviam no norte da Síria fogem novamente de suas casas, desta por causa do bombardeamento da Turquia. Não há dúvida de que o autor “intelectual” da invasão de 9 de Outubro comandada por Erdogan foi o presidente dos Estados Unidos, que dois dias antes ordenou a saída de uns poucos soldados que tinha na área para que as vítimas não fossem norte-americanas. Perante o assombro dos seus oponentes no Congresso e no Pentágono, por ter entregue esta estratégica zona ao aliado rebelde da NATO, Donald Trump apresentou as suas particulares desculpas:

1. Os curdos não ajudaram os EUA na Normandia; pelo que não há dívida histórica para com eles, antes pelo contrário: receberam milhões de dólares e equipamentos militares para defender seu próprio território, não o dos EUA.

2. O motivo da presença de tropas americanas na Síria era acabar com o ISIS, algo completamente alcançado - diz ele - e caso o grupo terrorista ressurja, serão os países da região quem o enfrentará.

3. Com esta retirada (pequeníssima), os EUA economizam “um monte de dinheiro” e encerram uma das muitas “guerras ridículas” em que têm participado. Mas o presidente não explica por que, no mesmo dia, anuncia o envio de outros 3.000 soldados para a Arábia Saudita para enfrentar o Irão.

Mesmo assim, e de repente, acrescenta: “Dito tudo isso, gostamos dos curdos”, deixando a porta aberta para ir salvá-los se o presidente “na sua inigualável sabedoria” o considerar Membros do Conselho de Segurança, incluindo China e Rússia, não castigaram e nem sequercondenaram a invasão turca de um estado soberano da ONU: limitaram-se a expressar a sua preocupação.

O que Trump não confessa

1. Que a presença de tropas dos EUA em solo sírio é ilegal, uma vez que não possui a autorização de Damasco, da ONU, ou sequer do Congresso dos EUA.

2. Que não se retira da Síria, mas de uma zona no norte deste país. Graças à guerra, os EUA pela primeira vez em sua história têm aqui cerca de vinte bases militares e, do mesmo modo que não retirou as suas tropas do Japão ou da Alemanha passados 74 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, não as eliminará, nem a mal, de um Estado localizado no coração da Eurásia.

Os EUA não alcançaram todos os seus objectivos na Síria, que foram: 1) Quebrar o Eixo da Resistência contra Israel, composto pela Síria, Irão, Hezbollah e Hamas; 2) Eliminar o único aliado do Irão, sendo este o “prémio” das suas guerras na região, abrigando a primeira reserva mundial de gás e a terceira maior em petróleo; 3) Desmantelar outro estado árabe depois de transformar o Iraque e a Líbia em cinzas, convertendo-o numa armadilha mortal para os rivais de Israel; 4) Dividir o país em mini-estados (como revelou o Sirialeaks), a fim de os dominar facilmente no futuro: Trump já reconheceu o domínio de Israel sobre uma parte da Síria, os Montes Golã; 3) Impor uma guerra longa e viver do suculento negócio de armas; 4) NATO-izar completamente o Mediterrâneo, sem as dificuldades que a Líbia e a Síria podem causar; 5) Dominar a Eurásia - a «heartland» ou “Zona Charneira” – a partir da Síria; 6) Cortar a secção síria da Rota da Seda Chinesa; 7) Impedir a construção do gasoduto Irão-Iraque-Síria-Mediterrâneo;; 8) Continuar a reconfigurar o mapa do «Novo Médio Oriente» à medida dos seus interesses, um século depois de a França e o Reino Unido terem feito o mesmo, desintegrando o Império Otomano. Criar um Estado Frankenstein curdo de a partir das entranhas da Síria e do Iraque é um dos projetos de Washington, apesar da sua impossibilidade. Pelo que a guerra contra a Síria continuará.

Como os mortais não têm acesso às caves sombrias da Casa Branca e do Pentágono para saber o que cozinharam, deixamos a nossa imaginação voar à procura de respostas para essa misteriosa acção de Trump.

Primeira hipótese

O presidente está a executar o Projecto do Novo Próximo Oriente e considerou que é hora de balcanizar a Síria ao longo das suas fracturas étnico-religiosas. No seu comunicado, a Casa Branca alega que a Turquia ia tomar conta dos prisioneiros do ISIS, que estão no campo de al-Hol, perto do Iraque, o que significa que não se trata de criar uma zona-tampão na fronteira turco-síria, mas de os turcos se apoderarem de grande parte do nordeste da Síria. Se Erdogan estivesse realmente preocupado com a “segurança” das suas fronteiras, teria levantado um muro em vez de lançar um ataque tão arriscado e dispendioso.

Os EUA estão a provocar uma situação semelhante à que teve lugar no Iraque em 1991, coincidindo com o fim da União Soviética: incitou os curdos (e os árabes xiitas) a levantarem-se em armas contra o regime de Saddam Hussein, seu próprio aliado. Depois de o terem feito, abandonou-os, deixando-os à mercê da vingança de Saddam. O protesto mundial contra essa traição foi o pretexto dos EUA para estabelecer duas zonas de exclusão aérea, retirando-as do controlo de Bagdad. Uma vez debilitado o Estado, pelos contínuos bombardeamentos e por um criminoso embargo, em 2003 derrubou Saddam com 7 mentiras e por 10 objectivos, e criou a Região Autónoma Curda (com o seu parlamento, exército, hino, bandeira etc.), convertendo-a em uma das suas principais bases na região.

É possível que Washington tenha agora traçado os seguintes passos na Síria: haverá um massacre de curdos às mãos do exército turco e uma terrível crise humanitária, amplamente televisionados (ao contrário das atrocidades cometidas pela coligação liderada pelos EUA e Arábia Saudita no Iémen); O ISIS reaparecerá cortando cabeças em frente às câmaras de televisão. Em 2014 nasceu como um exército de mercenários cuja missão foi “agir como um bulldozer”, abrindo o caminho para o domínio dos EUA sobre a Síria, sem perder um único soldado: lições do Vietname, Iraque e Afeganistão. Passo seguinte, a chamada “comunidade internacional” será obrigada, por razões éticas, a enviar tropas de “paz” compostas por árabes, turcos e europeus ao norte do país - o celeiro da Síria, onde também possui as suas reservas de petróleo e água - , para assim o separar do resto do território.

De caminho, cria uma grande armadilha para a Turquia de Erdogan - agora que o golpe de Estado contra ele fracassou - afundando-o no que será um profundo pântano para o seu exército e a sua economia enfraquecida. Além disso, é provável que os curdos da Turquia retornem à guerra de guerrilha semelhante à da década de 1980. De facto, os países da NATO, que estavam sem dúvida cientes do plano de invasão, chamaram “operação” ao ataque militar ilegal a um país soberano. Como reagiriam se a Venezuela invadisse a Colômbia, por exemplo?

Segunda hipótese

Tratar-se-ia de uma estratégia de sobrevivência de Donald Trump encurralado pelos democratas e pelo “Deep State”, que tentaram destituí-lo, tentando inclusivamente um golpe de Estado: tentaram-no através do Russiagate, da campanha MeToo – lançada pelo Hollywood “Democrata” -, sensibilizando a opinião pública relativamente a abusos sexuais (e ele tem já umas quantas denúncias) e, acima de tudo, empurrando-o para uma guerra com o Irão. A partir de Agosto, a pressão sobre o presidente aumentou:
12 de Agosto: um petroleiro japonês e outro norueguês sofrem ataques no Golfo de Omã, no meio do aumento das sanções sobre o petróleo iraniano.

20 de Agosto: o Irão derruba por engano um avião não-tripulado dos EUA. Poderia ter sido um pretexto perfeito para uma punição militar contra o Irão, mas Trump recusou-se e afirmou que não tinha sido intencional.
10 de Setembro: Trump destitui o falcão mais belicista do seu governo: John Bolton. O seu impacto na política dos EUA é tal que o preço do petróleo cai cerca de 2 dólares por barril, algo que nunca havia acontecido neste país com a saída de um assessor de segurança.
12 de Setembro: A Casa Branca filtra que as agências de inteligência dos EUA acusaram Israel de colocar dispositivos de escuta na Casa Branca para espiar o presidente.

14 de Setembro: um ataque de procedência misteriosa destrói a instalação petrolífera da Saudí Aramco e Mike Pompeo, sem apresentar qualquer prova, acusa o Irão. Mesmo assim, Trump recusa-se a entrar em guerra com o Irão, o que poderia acabar com as suas aspirações eleitorais para 2020. Pompeo, ex-chefe da CIA, assumiu a secretaria de Estado pondo fim à diplomacia nos EUA, substituindo Rex Tillerson que foi demitido por defender o acordo nuclear com o Irão e e que tinha reduzido em 31%.o orçamento para operações militares no exterior.

26 de Setembro: começa o Ucraniagate, e a possibilidade real do triunfo de uma moção contra Trump e o vice-presidente Mike Pence, oferecendo à presidente democrata do Congresso Nancy Pelosi substituí-lo.
É neste contexto que Trump telefona a Erdogan, convidando-o a atacar o norte da Síria e anuncia a retirada de uns poucos soldados de uma base militar, surpreendendo até Mike Pompeo que afirmava que os EUA nunca deram ‘autorização’ à Turquia para lançar esta “operação militar” contra os curdos. Pompeo pode ser o próximo a cair do governo!

Trump continua a jogar o seu trunfo de chefe máximo das forças armadas para desfazer as conquistas imperialistas do “Deep State”: poderá desmantelar quase 800 bases militares dos EUA espalhadas pelo o mundo e repatriar dezenas de milhares de soldados, assestando um duro golpe no Pentágono e no complexo militar-industrial. Neste caso, a sua intenção seria uma troca com os seus inimigos: eles retirariam a moção de censura e ele não deitaria para o lixo o resultado de anos de guerras de expansão dos EUA no Médio Oriente.
De momento, o vencedor é Trump: conseguiu, com este caos controlado, desviar a atenção do mundo do Ucraniagate para a brutalidade dos turcos e a tragédia dos curdos.

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