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Quarta, 18 Janeiro 2017 23:40

Ary dos Santos, o poeta do combate

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País: Portugal / Cultura/Música / Fonte: Abril Abril

Hoje assinalam-se 33 anos da morte de José Carlos Ary dos Santos. Poeta e declamador, a sua vida e obra está intimamente ligada à resistência, ao combate, à luta por um ideal libertador. Com palavras que ficaram muito para além da sua vida.

Pode dizer-se que a poesia de Ary dos Santos foi uma «arma». Esta «arma», pelo seu conteúdo, ao qual Ary conseguiu juntar uma insubstituível forma, com a sua voz, foi também construtora da Revolução de Abril e da libertação de todo um povo. Poderá também dizer-se que continua a ser hoje um grito libertador perante o conformismo e a submissão.

Ary dos Santos saiu de casa aos 16 anos e vendeu máquinas de pastilhas, foi paquete na Sociedade Nacional de Fósforos, escriturário no Casino Estoril e empregado numa empresa de publicidade. Não chegou a concluir nenhum dos cursos superiores, nem em Direito, nem em Letras. A poesia sempre esteve presente e manifestou desde cedo uma abordagem a temas fracturantes. A oposição à ditadura fascista desde logo o caracterizou, caminho que se consubstanciou com a militância comunista, com a construção da Revolução e a ênfase dada «às portas que Abril abriu».

Obra literária

Aos 14 anos a sua família publica, contra a sua vontade, o livro Asas com alguns dos seus poemas. Aos 16 vê poemas de sua autoria serem seleccionados para a Antologia do prémio Almeida Garrett.

Depois de já ter saído de casa, publica em 1963 o livro de poemas A liturgia do sangue. No ano seguinte lança o Tempo da lenda das amendoeiras e o poema Azul existe.

Seguem-se Adereços, endereços, em 1965; Insofrimento in sofrimento, em 1969; Fotos-grafias, apreendido pela PIDE em 1971; Resumo, em 1973; As portas que Abril abriu, em 1975; O sangue das palavras, em 1979; e, em 1983, 20 anos de poesia.

Por altura da sua morte preparava a obra As palavras das cantigas, publicado em 1989 pelas Edições Avante!. Estava também a escrever uma autobiografia romanceada, que desejava intitular de Estrada da Luz – rua da saudade.

A sua voz inconfundível fá-lo declamador em várias edições discográficas. O seu primeiro disco, Ary por si próprio, sai em 1970. No ano seguinte participa no LP Cantigas de amigos, juntamente com Natália Correia e Amália Rodrigues.

Em 1974, é divulgado Poesia política; em 1975, Llanto para Afonso Sastre y todos; em 1977, Bandeira comunista; em 1979, Ary por Ary e, no ano seguinte, Ary 80, reeditado em CD em 1999.
A arma poética que comanda

A intervenção política de Ary vinha desde os anos 60, e assume particular relevância a partir de 1969, ano em que se inscreve no Partido Comunista Português.

Percorreu o País, às vezes sozinho com a sua poesia, outras vezes em sessões organizadas por estruturas populares nas quais participavam também os cantores de intervenção que, como ele, através da música e das palavras procuravam reflectir o sentir de todo um povo. Várias vezes essas sessões eram interrompidas pela chegada das forças repressivas.

As palavras eram uma arma que foi trazida pelo Ary para as ruas, reflectindo a inquietude de um povo sedento de liberdade e de esperança. As palavras agitavam, davam essa esperança e eram um arremesso contra a ditadura.

Para isso foi ainda utilizada a música popular urbana, também através do poderoso meio de comunicação de massas, a televisão, nomeadamente o Festival da Canção. Escreveu os poemas de quatro canções vencedoras do festival e apuradas para representarem Portugal no Festival Eurovisão da Canção: «Desfolhada Portuguesa» (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, «Menina do Alto da Serra» (1971), interpretada por Tonicha, «Tourada» (1973), interpretada por Fernando Tordo, e «Portugal no Coração» (1977), interpretada pelo grupo Os Amigos.

A capacidade criativa de Ary dos Santos, em particular em letras para cantigas, está demonstrada em mais de 600 produções poéticas. Ary dos Santos é dos poucos poetas que conseguiram transpôr para as palavras da sua poesia a consciência do momento histórico, o movimento das massas em luta, os momentos da Revolução de Abril: a Reforma Agrária, as nacionalizações, as lutas dos trabalhadores, o direito à terra e ao trabalho, à paz e ao pão. Foi um activo participante nas quotidianas lutas do povo, protagonista e intérprete dos momentos mais altos da Revolução.

Para além de permanecer numa memória viva da história, ainda hoje os poemas de Ary dos Santos são cantados por diversos artistas.

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

Ary dos Santos, in 'Fotos-Grafias'

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